• REDAÇÃO GM Brasil Notícias

Em carta, Monique muda versão e relata agressões de Jairinho


A professora Monique Medeiros, presa pela morte do próprio filho, o menino Henry Borel, que tinha quatro anos, escreveu uma carta de 29 páginas aos advogados na última sexta-feira, 23/4.


O documento faz parte de uma estratégia que a defesa vinha traçando há pelo menos 10 dias. Os advogados optaram por divulgar tudo que Monique alega sobre o crime depois de a polícia dar sinais claros de que não colheria um novo depoimento dela.


A carta relata desde a turbulenta separação com o pai de Henry, Leniel, com quem Monique manteve um relacionamento ao longo de dez anos, até o dia da morte do filho dos dois, a madrugada do último 8 de março. Henry Borel morreu com mais de 24 lesões pelo corpo, incluindo uma laceração no fígado e machucados na frente, atrás e do lado da cabeça. "Lembro de ser acordada no meio da madrugada sendo enforcada enquanto eu dormia na cama ao lado do meu filho. Quase sem ar, ele jogou o telefone em cima de mim perguntando, me xingando, me ofendendo, o porquê eu não estava atendendo ele e do porquê eu tinha respondido uma mensagem do Leniel (onde eu chamava de 'Lê' e ele me chamava de 'Nique'.", descreve Monique sobre o que seria um dos episódios de violência de Jairinho.


Em outro trecho, Monique conta que em janeiro, logo após eles terem se mudado para um condomínio na Barra da Tijuca para morarem juntos "[Henry] chegou dizendo que o tio tinha dado uma 'banda' nele e uma 'moca'. Fui até a sala perguntando o que tinha acontecido e Jairinho disse que ele era um "bobalhão" (...) que era só uma brincadeira". Ela diz que pediu a Jairinho que ele pedisse desculpas ao filho e que não mais o chamasse assim.


"Preciso prestar novo depoimento pois fui orientada a mentir sobre a morte do meu filho. Fui treinada por dias pra contar uma versão mentirosa por me convencerem de que eu não teria como pagar um advogado de defesa e que eu deveria proteger o Jairinho já que ele se dizia inocente", diz Monique no fim da carta.


A noite da morte de Henry

Na carta, Monique afirma que depois que Leniel entregou o filho para ela no domingo à noite, ela o fez dormir e foi assistir TV com Jairinho, e que Henry acordou três vezes. Ela diz que levou o filho novamente para a cama todas elas e por volta da 1h30min foi conduzida por Jairinho até o quarto de hóspedes e tomou remédios para dormir que ele havia entregue para ela.


"De madrugada ele me acordou dizendo para eu ir até o quarto, que ele pegou Henry do cão, o colocou na cama e que meu filho estava respirando mal. Fui correndo até o quarto, meu filho estava de barriga para cima, descoberto, com a boca averta, olhos olhando para o nada e pensei que tivesse desmaiado. Pedi pro Jairinho olhar ele, mas ele passou por nós pra ir até o banhheiro! (...) Então envolvi Henry numa nmanta e corremos para a emergência", escreve ela.


A carta termina quando ela relatava o momento em que estavam no Hospital Barra D'Or, para onde Henry foi levado de madrugada e onde tentaram ressucitá-lo. "Na emergência do hospital foram os minutos, segundos e horas mais desesperadoras que eu já pude vivenciar na vida. Eu orava, ajoelhava, implorava", e a carta termina. Abaixo, ela assina com a data de sexta-feira, 23/04, quando o documento foi entregue aos advogados.


Expressões idênticas

Os relatos de agressões e comportamentos de Jairinho feitos por Monique no extenso documento se parecem com trechos dos depoimentos de outras mulheres que também afirmam terem sido agredidas por ele. A expressão "mocas", que se refere a golpes na cabeça com o punho cerrado, também foi usada por uma ex-namorada de Jairinho para relatar o que ele supostamente tinha feito à filha dela


Já os relatos de um 'comprimido' e 'pó branco' na taça aparecem no depoimento de duas ex-namoradas. Como elas, Monique fala que o remédio supostamente a faria dormir. As mulheres afirmam que tomavam remédios receitados pelo vereador e médico ora conscientemente, ora não - exatamente como Monique.


A forma como são relatadas as agressões, também se assemelha muito ao que relatam as outras mulheres ouvidas na investigação. Expressões usadas por Monique como 'pegar pelos braços', 'jogar no sofá', 'mais força' e 'descontrole' também aparecem em outros relatos. Em tese, os depoimentos das testemunhas do caso são sigilosos, como todo o processo, mas circularam entre os jornalistas, advogados e até mesmo em grupos de whatsapp.


A reportagem entrou em contato com a defesa de Jairinho mas ainda não teve retorno.


Testemunhas em potencial

Ao longo da carta, Monique cita pessoas, ligações e referências que poderiam ajudar os policiais a encontrarem eventuais testemunhas, como o marceneiro que consertou a porta depois de uma briga do casal e amigas que supostamente sabiam das agressões. Cita também o nome de clínicas médicas por onde Jairinho teria passado depois de uma briga do casal e detalhes específicos sobre situações de conflito, como a roupa da babá que teria sido rasgada por Henry pelo medo de ele ir conversar com Jairinho. Os relatos condizem com a expectativa que os advogados tinham, de que isso pudesse provocar novas diligências policiais e que os responsáveis pudessem colher novos depoimentos de testemunhas sobre o caso.


Lacunas

A carta não explica pontos tidos cruciais pelos investigadores do caso, como o fato de Monique ter comprado uma câmera disfarçada de lâmpada para tentar flagrar as agressões. Não menciona também a selfie tirada por ela na delegacia e a ida ao salão de beleza depois da morte do filho.


A carta não explica, ainda, o fato de Jairinho, que tinha formação como médico e segundo a própria Monique até receitava remédios, não ter feito os primeiros socorros em Henry. O texto escrito aos advogados menciona por alto a troca de emprego, quando ela passou a trabalhar em um cargo comissionado no Tribunal de Contas do Município com salário de R$ 12 mil.

3 visualizações0 comentário
Logo_Rádio_Mundial.png