• REDAÇÃO GM Brasil Notícias

Clarice Lispector: os 100 anos de uma autora que ainda vive

Atualizado: 11 de Dez de 2020


Reza a lenda que, em 1943, o prestigioso crítico literário Álvaro Lins deu um enfático conselho a uma jovem de 23 anos: este livro não está pronto para ser publicado. A moça, que não era das mais comedidas, não deu muita bola ao guru da literatura e resolveu publicar uma pequena tiragem numa editora não muito conhecida de ‘Perto do Coração Selvagem’. Em 1944 a obra ganharia o prestigiado prêmio Graça Aranha de romance estreante e se tornaria um sucesso de vendas. Nascia então, na literatura, Clarice Lispector.   

A autora ucraniana, naturalizada brasileira, completaria 100 anos nesta quinta-feira (10), caso não tivesse morrido devido a um câncer no ovário em 1977. Em seus 56 anos construiu um legado de 23 obras e o status de dama da literatura, uma espécie de “Virginia Woolf dos trópicos”. 

O termo “muito feminino” era uma luz ao caminho que Clarice traçava, na contramão de romances modernistas que narravam as mazelas de um Brasil profundo, como “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, e “Sagarana”, de Guimarães Rosa. O que Lins não havia entendido era que a autora também falava de profundidade: suas obras narram a vastidão do ser. Se analisarmos: tudo é Clarice: desde a barata que você encontra num armário até um paquera que não retorna as suas ligações.

Não à toa, a onipresença da obra clariciana migrou para onde a vida cotidiana se é mais exposta: as redes sociais. Há pouco mais de dez anos foi moda legendar com frases da escritora, fotos no Instagram ou Facebook. Isso se deu graças a uma movimentação da Editora Rocco, detentora dos direitos autorais das obras de Clarice, em comemoração ao seu 90º aniversário. 


A estratégia de marketing era soltar frases soltas das obras no Instagram para divulgar as edições comemorativas de aniversário de obras clássicas da autora. Deu tão certo para a Rocco que Clarice se consolidou como segunda autora mais vendida da Rocco – perdendo o primeiro lugar no pódio apenas para J.K. Rowling, autora da saga Harry Potter. 

Por outro lado, a popularização dos trechos soltos das obras resultou também na proliferação de frases falsas atribuídas à autora. Frases de efeito, das mais cafonas às mais elaboradas, começaram a ganhar assinatura de Clarice Lispector. Isso causou alguns risos online e um mal estar entre os clariceanos (estudiosos das obras de Clarice): há quem não goste dessa reprodução desenfreada, alegando que empobrece o legado da autora, enquanto outros acreditam que o movimento só fortalece o nome. 

Ponto é: segundo Google Trends, a busca por frases de Clarice Lispector em 2010 ultrapassou a busca por frases do dramaturgo inglês William Shakespeare. E persiste até hoje.  

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