• REDAÇÃO GM Brasil Notícias

Após contrato com Ministério, Butantan e Fiocruz terão caminhos opostos


Instituto paulista passará a fornecer vacina para os estados e prefeituras diretamente, fundação fluminense seguirá servindo o PNI e pode mirar outros países


A Fundação Oswaldo Cruz e o Instituto Butantan tomarão caminhos opostos nos próximos meses no fornecimento das vacinas contra a Covid-19. A intenção da Fiocruz é manter exclusividade de entregas ao Programa Nacional de Imunizações. A diretoria da Fundação só prevê outros destinos para a vacina contra o coronavírus se o governo brasileiro decidir pelo caminho da ajuda humanitária.


“Vamos seguir fornecendo exclusivamente ao Programa Nacional de Imunização. Será possível com a capacidade instalada, em determinado momento, fornecer para outros atores da saúde global como OMS e OPAS. Isso quando o Brasil tiver avançado ainda mais na vacinação de sua população. Não há ainda estes indicativos, mas podemos ter muitos anos pela frente e nem todos os países estão conseguindo vacinar. Nesse sentido, acredito que o Brasil e a Fiocruz poderão contribuir”, disse o vice-presidente de Produção e Inovação da Fiocruz, Marco Krieger.


Enquanto isso, o Instituto Butantan já começou a negociar com outros estados para venda direta. Foram acordadas a venda de 3 milhões de doses para o governo do Ceará, 500 mil para o Espírito Santo e outras 500 mil para o Piauí. A venda direta para três governos de partidos de esquerda (PT e PSB) recebeu o aval do governador João Doria (PSDB), que se tornou oponente declarado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e tem criticado a demora do Ministério da Saúde para repassar vacinas aos estados.


Em visita ao Rio no início do mês, o ministro Marcelo Queiroga afirmou que não estocava vacinas, que apenas submetia as remessas recebidas às análises dos órgãos técnicos. “O Ministério não tem estoques de doses. [Quando] essas doses chegam ao departamento de logística do Ministério da Saúde, é necessária uma autorização da Anvisa e é necessário que o INCQS libere. Assim que libera, a gente dispensa para os estados e municípios. A nossa campanha vai muito bem. Todas as narrativas que querem desqualificar a campanha nacional de imunização do Brasil estão batendo com a cabeça na parede”, afirmou.


A leitura de interlocutores de Doria ouvidos pela CNN é que essa venda direta eliminaria um ‘intermediador’, que seria o Ministério da Saúde, rendendo capital político ao governador que quer se tornar presidenciável mas ainda precisa de apoio interno. “A partir do dia 1º de setembro, nós atenderemos governadores e prefeitos que solicitaram a Coronavac para a complementação dos seus programas vacinais”, disse Doria em visita ao Rio de Janeiro no último final de semana. Ele ofereceu a vacina ao prefeito Eduardo Paes (PSD) e ao governador Cláudio Castro (PL), de partidos do centro.


As contribuições do Instituto Butantan e da Fundação Oswaldo Cruz para o Programa Nacional de Imunizações tem sido bastante semelhantes. Até agora, o Instituto, que é ligado ao governo de São Paulo, já entregou 78,8 milhões de doses da Coronavac para o governo federal. Com sede no Rio de Janeiro, a Fundação ligada ao próprio Ministério da Saúde, já entregou 88,4 milhões de doses da vacina com a fórmula da AstraZeneca ao governo federal.


Mas as promessas terminam nos próximos meses. O contrato do Butantan prevê 100 milhões de doses. A expectativa do governo de São Paulo é bater a meta até o fim de agosto, 30 dias antes da data limite acordada com o Ministério da Saúde.


Já a Fiocruz tem como compromisso o dobro: 104,4 milhões de doses com ingredientes importados e outras 100 milhões já contando com a introdução da matéria prima nacional. A Fundação pode atualizar as expectativas de entrega dependendo da evolução dos processos na fábrica de BioManguinhos, mas afirma que tem mantido constantes as remessas ao PNI desde abril.


Questionado sobre a venda direta aos estados e municípios, o Ministério da Saúde informou que a lei 14.124 já permite a negociação direta dos entes federativos com os fabricantes, mas que até o momento, não há informação oficialmente sobre nenhuma compra realizada por estados. Eles dizem oficialmente que “a pasta mantém diálogo com os laboratórios e segue em negociação” e que “trabalha diuturnamente para garantir a igualdade no envio das vacinas contra a Covid-19 para todos os estados”.


A nota ainda diz que o estado de São Paulo recebeu mais de 10 milhões de doses em agosto. “Somente nos últimos sete dias foram entregues mais de 4,6 milhões de doses para o estado. A população de São Paulo equivale a 22,3% da população brasileira”.

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